Por Gabriel Vital*

Gabriel Vital, editor de web do Diário da Região, em São José do Rio Preto (SP)

Ser jornalista na era da comunicação imediata, das redes sociais e do conteúdo multimídia é estar constantemente diante de novos desafios. As plataformas mudam em velocidade estonteante, surgem novas funcionalidades e os algoritmos já não são tão previsíveis. Paralelamente a isso, é preciso desvendar o comportamento do consumidor de notícias para entender por que formatos que sempre funcionaram bem, de repente, já não despertam tanto interesse, ao passo que determinados padrões outrora rejeitados se transformam em modelos de sucesso.

Quem imaginaria, há dois anos, que candidatos à Presidência concederiam entrevistas de até cinco horas de duração a podcasts e canais na internet? Uma realidade, até então, pouco provável. Primeiro, diante da crença de que postulantes ao cargo mais alto da República ocupariam suas agendas apenas com entrevistas a grandes veículos da imprensa tradicional. Depois, porque se acreditava, até pouco tempo, que o formato que funcionava na internet era somente o de vídeos curtos e que conteúdos longos não teriam potencial de alcançar grandes audiências.

Dois prognósticos equivocados. Mas, observando dados, fica mais fácil de compreender essa nova realidade. O consumo de podcasts no Brasil chega a 40% da população, segundo dados da Statista, especializada em informações de mercado. O País, aliás, ocupa lugar de destaque no levantamento, no mesmo patamar da Suíça e da Irlanda, e acima da média global, que deve chegar a 23,5% somente em 2024, segundo a consultoria eMarketer.

Vale lembrar que hoje os podcasts não se limitam ao áudio. Estudo do Google aponta que 63,1% dos usuários do YouTube gostam de acompanhar seus programas favoritos não em áudio, mas em vídeo pela plataforma. Atento a essa tendência, o Spotify, um dos principais players de podcasts no mercado, incorporou o recurso do vídeo ao seu próprio serviço de streaming, de modo a atender a demanda que partiu dos consumidores do conteúdo.

Algumas hipóteses explicam o sucesso desse formato. A primeira é de que muita gente descobriu os podcasts — e gostou! — durante a pandemia. Estudo da Globo em parceria com o Ibope mostrou que 57% da população começou a ouvir os programas on-line nesse período. Além disso, a popularização do smartphone e do acesso à internet de alta velocidade também facilitaram essa descoberta. A chegada das smart TVs a 61% dos lares brasileiros, segundo estudo das empresas Nielsen e MetaX, também contribui para aumentar o alcance desse tipo de conteúdo.

Deixando de lado as razões objetivas, vale também observar fatores subjetivos que têm contribuído para a popularização dos podcasts, como a naturalidade com que as entrevistas são conduzidas, em tom de conversa informal, o que aproxima os apresentadores e convidados dos espectadores. Essa espontaneidade tende a prosperar na internet, sobretudo nas redes sociais, onde irrompem trechos curtos dos programas — os chamados “cortes” —, com potencial de alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.

Observando esse terreno tão fértil, não tivemos dúvidas quando decidimos que o Diário da Região deveria explorar esse formato no nicho em que somos mais fortes: o jornalismo local. Com apoio da Associação Nacional de Jornais (ANJ), da Associação Nacional de Editores de Revistas (ANER), do International Center for Journalists (ICFJ) e da Meta, desenvolvemos, durante o programa Acelerando a Transformação Digital, um projeto para criação de podcasts de impacto dentro de nossa comunidade, a Região Metropolitana de São José do Rio Preto (SP).

Assim nasceram dois programas: o Diário Talks, que neste período eleitoral já promoveu discussões relevantes com grandes nomes do cenário político, trazendo sempre um olhar local sobre as questões abordadas, e o Falando de Saúde, que busca desmistificar temas de interesse público com ajuda de profissionais de renome na cidade e na região.

Em uma estratégia que consiste na publicação de episódios de aproximadamente uma hora no YouTube e nas plataformas de áudio, com cortes no Instagram e Facebook, nossos podcasts têm se consolidado como importantes espaços de discussão sobre temas relevantes à nossa comunidade e vêm crescendo em audiência a cada semana.

Mas, mais importante que o desenvolvimento desses dois projetos, a entrada do Diário da Região nesse universo da produção de conteúdo multimídia vem acompanhada do amadurecimento e da consciência de que, cedo ou tarde, as plataformas ou o comportamento do usuário podem mudar novamente, exigindo de nós uma nova adaptação, o que reforça a necessidade de estar atento às tendências e buscar, insistentemente, compreender como elas se aplicam à realidade do jornalismo local.

Afinal, mudanças virão. O que vai determinar se teremos sucesso é como reagiremos a elas.

*Editor de web do Diário da Região, em São José do Rio Preto (SP).