O GLOBO
O canal de notícias a cabo que impulsionou a carreira política de Donald Trump repentinamente passou à posição de arauto do seu fim. Na terça-feira a noite, a Fox News anunciou a vitória antecipada no Arizona para Joe Biden, enfurecendo Trump e seus assessores, que contataram publicamente e nos bastidores os executivos da rede para contestar o resultado anunciado.
A rede se manteve firme — mesmo quando duas de suas maiores estrelas, Laura Ingraham e Jeanine Pirro, compareceram à desafiadora entrevista coletiva de Trump no início da manhã no Salão Leste da Casa Branca.
A tela dividida da noite da eleição ressaltou a linha tênue sobre a qual os âncoras e comentaristas da Fox News têm caminhado. Na tarde de quarta-feira, a Fox estava mais perto de qualquer grande rede de declarar a vitória de Biden na corrida presidencial — não o resultado que muitos fãs de sua programação pró-Trump poderiam desejar.
A Fox News também foi a única grande rede a cabo a transmitir uma entrevista coletiva na quarta-feira realizada pelo advogado do presidente, Rudy Giuliani, que fazia alegações infundadas de fraude eleitoral. Mas o canal imediatamente cortou para anunciar um grande acontecimento: a projeção de uma vitória em Michigan para Biden, o que o levava à porta da Presidência, de acordo com as projeções da Fox.
E logo depois de Bret Baier, o principal âncora político da rede, enfatizar aos telespectadores na quarta-feira que a ameaça de litígio de Trump poderia pôr a corrida em dúvida — mesmo com a eventual projeção de que Biden alcançou 270 delegados no Colégio Eleitoral —, o editor de política da Fox News, Chris Stirewalt, jogou água fria em algumas das afirmações infundadas da campanha de Trump.
— Ações judiciais, processos idiotas — disse Stirewalt. — Ainda não vimos nenhuma evidência de que haja algo errado.
A Fox News há muito ocupa uma posição incomum na órbita de Trump. A rede é o lar de alguns dos defensores mais vociferantes do presidente, incluindo Sean Hannity, Ingraham e os anfitriões de “Fox & Friends”. Mas Trump frequentemente atira contra sua divisão de notícias e operação eleitoral.
— A Fox mudou muito — disse Trump na manhã de terça-feira em “Fox & Friends”. — Alguém disse: ‘Qual é a maior diferença entre esta eleição e a de quatro anos atrás?’ Eu digo, Fox.
O presidente é um espectador vociferante e crítico constante, elogiando os anfitriões preferidos pelo primeiro nome em comícios (“Jeanine!”, “Tucker!”), e ligando para a executiva-chefe da rede, Suzanne Scott, para reclamar da cobertura. Ele contratou (e demitiu) ex-funcionários da rede; menosprezou seus anfitriões, ao mesmo tempo que concordou com entrevistas; e contou com os conselhos políticos de Hannity enquanto criticava âncoras de notícias como Chris Wallace e Shepard Smith, que trocaram a rede pela CNBC.
Na sequência do anúncio de terça-feira sobre o Arizona, uma visão mista da Fox News se espalhou entre alguns dos aliados de Trump. O governador Ron DeSantis da Flórida, um republicano que alcançou a fama impulsionado pelas participações como convidado da Fox News, criticou a rede pelo que considerou uma projeção insuficientemente rápida de uma vitória de Trump em seu estado natal.
— Achei inexplicável a Fox resistir tanto a anunciar o resultado na Flórida, mas agir tão rapidamente no Arizona — disse DeSantis a repórteres em Tallahassee na quarta-feira. — Não acho que isso tenha sido feito sem algum tipo de intenção, seja audiência, seja outra coisa.
Na verdade, membros da mesa de decisão da Fox News disseram repetidamente que a equipe de pesquisa da rede — que reporta à divisão de notícias e é isolada na noite da eleição — estava apenas aderindo a uma análise rigorosa. A equipe de dados da rede, liderada por Arnon Mishkin, depende de um modelo que se baseia em dados da Associated Press.
Ainda assim, algumas personalidades da Fox News especularam se o Arizona permaneceria favorável a Biden.
— Pode haver algum aperto lá — disse Baier na quarta-feira, resumindo os argumentos da campanha de Trump, enquanto Bill Hemmer usou um mapa interativo para invocar maneiras de Trump conseguir uma vitória na Pensilvânia.
Mas quando Hemmer perguntou se a rede poderia considerar reverter o anúncio do Arizona, Stirewalt riu.
— Não que eu saiba — disse.
Wallace também ofereceu um prognóstico sombrio para o presidente.
— É uma matemática muito simples agora — disse ele, logo após a Fox News projetar que Biden venceria em Wisconsin. Apontando para as vantagens de Biden em Nevada e Michigan, ele disse: — Se ele mantiver sua liderança nesses dois estados, ele será o 46º presidente dos Estados Unidos
Pouco mais de uma hora depois, a Fox News anunciaria a vitória de Biden em Wisconsin.
Hannity não apareceu na Fox News na noite da eleição, mas voltou na noite de quarta-feira, ecoando alguns dos pontos do presidente sobre a integridade da contagem dos votos. Ele se deteve, no entanto, na afirmação infundada de Trump de “fraude”.
— Você confia no que aconteceu nesta eleição? — Hannity perguntou aos telespectadores. — Você acredita que os resultados das eleições são precisos? Você acredita que esta foi uma eleição livre e justa? Eu tenho um monte de perguntas.
Hannity tinha poucos argumentos específicos, lançando uma referência a “pessoas mortas”, e às vezes seu monólogo soava como um episódio regular de seu programa, não um especial pós-eleitoral. Seu superior, Tucker Carlson, também falou ameaçadoramente sobre os resultados da votação, evitando uma aceitação direta das alegações infundadas de Trump sobre a vitória em estados nos quais ainda não era possível declarar um vencedor.
— Muitos americanos nunca mais aceitarão os resultados de uma eleição presidencial — disse Carlson a certa altura.
Lachlan Murdoch, filho mais velho de Rupert Murdoch e presidente executivo da controladora da Fox News, foi questionado em uma teleconferência na terça-feira sobre lucros, se uma possível vitória de Biden poderia limitar o sucesso de audiência do canal. Ele ressaltou que a Fox News havia dominado rivais do noticiário na TV a cabo ao longo de “diferentes governos e diferentes ciclos políticos”. E acrescentou:
— Esperamos ser o nº 1 — disse.