Em março de 2020, o jornalista Marcelo Rech, então diretor do grupo RBS e presidente-executivo da Associação Nacional de Jornais (ANJ), precisou ir à redação e assustou-se com o que viu. “Era como se eu tivesse entrado em um túnel do tempo”, afirmou Marcelo Rech, que passou, então, a fotografar a redação vazia, pois viu que se tratava de um cenário histórico. Fez imagens abertas e outras de detalhes, como o da escala de plantão para o fim de semana e do bloco de anotações que relacionava reportagens previstas para aquele dia, 13 de março, quando a redação entrou em home office. “Não toquei em nada. Só fui fotografando. Era como se o tempo tivesse sido congelado”, explica.
O depoimento do presidente-executivo da ANJ é um entre vários descritos pelo também jornalista Marcelo Freitas no livro “Nós também estivemos na linha de frente: as histórias do jornalismo na pandemia”, da Comunicação de Fato Editora. Na conversa que teve com Freitas, Rech falou sobre a preocupação da entidade com a pandemia antes mesmo da decretação do estado de emergência sanitária no país, a produção de capas conjuntas no início da Covid-19 e o impacto da pandemia sobre a circulação e o faturamento publicitário do setor.
Os bastidores da cobertura da Covid-19, a maior operação da imprensa brasileira em toda a sua história, estão mostrados na obra, que descreve como foi a migração do jornalismo presencial para o home office, os desafios enfrentados para fazer a cobertura da pandemia no novo modelo, a formação do Consórcio de Veículos de Imprensa, as agressões e tentativas de intimidação que os jornalistas sofreram durante a Covid-19, a parceria do jornalismo com os cientistas e a volta para o sistema presencial nas redações, a partir do final de 2021.
Segundo Freitas, o objetivo do livro é servir como um registro histórico de um momento tão importante da humanidade e da cobertura jornalística, que foi extenuante e cumpriu o papel de informar, informa o jornal Estado de Minas. “Na diretoria do sindicato, recebíamos as informações sobre como estava o trabalho nas redações. Então, sabíamos que o ritmo estava muito pesado e cansativo. O teletrabalho e a produção de matérias só sobre a pandemia gerou desgaste emocional. Ao mesmo tempo, apesar do jornalista falar sobre todas as categorias, pessoas e o mundo em geral, normalmente, não é dito sobre a realidade dele”, afirmou o escritor em entrevista ao diário mineiro.
Assim como enfermeiros, médicos e demais profissionais da saúde, jornalistas e redações do Brasil inteiro tiveram que se adaptar à nova realidade. Além da implementação do home office, alguns profissionais, mesmo com o risco de se contaminar, em um momento sem perspectiva da vacina, tiveram que ir em entrevistas coletivas e hospitais para cumprir a função do trabalho. “Nem um site saiu do ar para poder ser feito a migração do presencial para o online. Nenhuma televisão deixou de noticiar a pandemia todos os dias. O teletrabalho foi implementado, podemos dizer, com o carro andando, foi algo da noite para o dia, a partir da terceira semana de março de 2020. A disposição dos editores em montar uma logística sem que a produção de conteúdo fosse interrompida é um dos fatores que chama atenção”, disse Freitas.
Para ele, repórteres exerceram realmente a missão do jornalismo de informar. “Não deixaram a peteca cair. Falei com vários jornalistas durante a pandemia e, ainda que tivessem dificuldades, prevaleceu a ideia de que eles estavam num momento muito importante da história e do jornalismo. Por isso, estavam prestando um serviço de utilidade pública e que não podia ser abandonado”, completou.
Ao contrário do que muitas pessoas acreditam, o escritor explica que todos que estiveram na linha de frente do novo coronavírus não foram heróis, mas sim profissionais honrados. “Médicos, enfermeiros, cientistas e jornalistas cumpriram o juramento que fizeram durante a graduação. Na pandemia, eles cumpriram com honradez a função dada nesta história trágica”, destacou.
Ao todo, na obra, foram entrevistados mais de 60 profissionais, incluindo repórteres, fotógrafos, editores, cientistas e assessores de comunicação de instituições de saúde e ciência, como o Instituto Butantan, UFMG e, até mesmo, o Ministério da Saúde. Além disso, o ex-ministro da Saúde Nelson Teich prestou depoimento para falar sobre a relação com jornalistas na pandemia do novo coronavírus.
Foto do topo: Gladyston Rodrigues/Estado de Minas/D.A Press