O GLOBO
Morreu na noite de quarta-feira, aos 95 anos, o chargista do GLOBO Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini, mais conhecido como Lan, em decorrência de pneumonia e infecção urinária. Ele estava internado havia dois meses no Hospital da Beneficência Portuguesa, em Petrópolis, cidade onde vivia há mais de 40 anos. A informação foi confirmada pela família.
Nascido em Montevarchi, na região italiana da Toscana, em 18 de fevereiro de 1925, Lan veio para o Brasil aos quatro anos de idade. Ficou aqui por apenas três, até que seu pai, músico, recebeu um convite para participar da Orquestra Sinfônica de Montevidéu. Foi na capital uruguaia que Lan cresceu, e onde começou sua carreira, trabalhando em jornais como o Mundo Uruguaio.
O artista também teve passagens pela imprensa da Argentina e da França, até que, em 1952, foi convidado por Samuel Wainer para trabalhar no Última Hora. Lá, publicou um de seus trabalhos mais marcantes: uma caricatura do político Carlos Lacerda, onde retratava o arqui-inimigo de Getúlio Vargas como um corvo. Mais tarde, o animal foi incorporado pelo próprio Lacerda a suas peças de propaganda.
Em seguida, Lan fez uma breve passagem pelo GLOBO antes de se fixar no Jornal do Brasil, em 1962, onde permaneceu por 33 anos. De volta ao GLOBO, passou a assinar a coluna “Cariocaturas”, onde retratava o cotidiano da cidade, sempre com refinada ironia.
— Foi ele quem abriu caminho para Henfil e Ziraldo, e quem me trouxe para o Rio, em 1978, depois de ver um desenho meu na revista “Isto é” — lembrou Chico Caruso, amigo de longa data do chargista. — Era material importado, mais resistente, mas sabíamos que estava difícil para ele.
Para Ziraldo, Lan foi um dos caricaturistas mais talentosos que viu em sua vida:
— Era um gênio da caricatura — diz o pai do “Menino Maluquinho” e um dos colaboradores do “Pasquim”. — A velocidade que ele pegava a caricatura do objeto, era impressionante. Agora, essa não era a maior qualidade do Lan, a maior qualidade era a generosidade humana. O Lan era a pessoa mais generosa que eu conheci em minha vida”.
Segundo Aroeira, o estilo de Lan era inimitável, à maneira de um J. Carlos. Ainda, assim influenciou sua geração pelo apuro técnico e beleza gráfica de tudo o que produzia.
— Além de ser o gênio que era, era também um sujeito amabilíssimo, de uma gentileza e delicadeza ímpares — diz Aroeira. — Tive a sorte de ser amigo desse maestro do desenho e da caricatura. Deixa uma obra pra ser cantada em verso, prosa e teses de doutorado.
Apaixonado pela boemia carioca e pela beleza das mulheres, especialmente as negras, o cartunista fazia das curvas a marca mais inconfundível de seu estilo. O amor pelo universo do samba lhe rendeu uma homenagem dos compositores Moacyr Luz e Aldir Blanc, a canção “Mitos cariocas: Lan”, e um casamento de seis décadas com Olívia Marinho, ex-passista do Salgueiro.
O coração do artista, no entanto, era azul e branco como o pavilhão da Portela, cuja Velha Guarda ele integrava. Foi com as cores da escola que o cartunista Aroeira também homenageou o amigo, numa publicação no Instagram:
“O querido, genial, inacreditável, engraçadíssimo e brasileiríssimo Ítalo-Uruguaio-Carioca Lan se foi. Mestre Lanfranco Aldo Ricardo Vaselli Cortellini Rossi Rossini agora é memória. E desenho, milhares deles. Vá em paz, Lan. Dia triste pra caramba”, escreveu o artista.
Por décadas, Lan também se dedicou a retratar músicos brasileiros, resultando numa coleção de 80 caricaturas que, em 2017, foram restauradas e transferidas para a Casa UBC, da União Brasileira de Compositores, no centro do Rio. Entre os homenageados pelo traço do artista, estão nomes como Gilberto Gil, Rita Lee e Renato Russo — cujo legado vem sendo disputado judicialmente em Brasília.
Lan será enterrado esta tarde no Cemitério de Itaipava, em Petrópolis. Ele não deixa filhos.