FOLHA DE S.PAULO
Professor desde 1974 do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes da USP, Ciro Marcondes Filho testemunhou as transformações do jornalismo com a chegada do computador pessoal, da editoração eletrônica, da internet e das mídias sociais, entre outros avanços.
Longe de ficar parado no tempo, ele sempre incorporou a reflexão sobre as novas tecnologias à sua pesquisa e às suas aulas, ministradas no CJE por mais de três décadas.
Um dos pesquisadores brasileiros mais citados na área, Marcondes publicou quase cem artigos científicos e escreveu ou organizou mais de 50 livros, como “Comunicação do Sensível” (ed. ECA-USP, 2019).
Deu importante contribuição para a criação da chamada nova teoria da comunicação, que sustenta que essa última só acontece quando um sujeito é capaz de provocar sensações e impactos no pensamento de outro e que ela exige abertura para o que está fora do indivíduo.
Ex-alunos como esta repórter lembram-se que no início dos anos 2000 ele exigia a leitura de textos clássicos da sociologia e fenomenologia e de artigos sobre novas tecnologias, além de que se assistissem a filmes como “Meu Jantar com André” (1981), de Louis Malle, e “Videodrome” (1983), de David Cronenberg. Ensinava na graduação e na pós-graduação a destrinchar textos da bibliografia parágrafo a parágrafo, com disciplina.
“Era o expoente máximo desse departamento. Suas aulas tinham uma riqueza incrível porque fazia uma reflexão crítica atualizada, mas tinha uma belíssima formação intelectual clássica nas áreas da filosofia, sociologia e teoria da comunicação”, diz a professora Mayra Rodrigues Gomes, que foi sua aluna de pós-graduação e colega no CJE por muitos anos. “Foi um grande professor e uma pessoa correta, justa e democrática.”
“Ele colocou a teoria brasileira da comunicação de maneira definitiva no cenário internacional. Era um erudito e gostava de agregar pessoas de formações distintas, criando um ambiente de divergência saudável”, diz Maurício Liesen, professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR) que foi orientado por Marcondes no doutorado e pós-doutorado.
Ciro Marcondes Filho morreu no domingo (8) após lutar contra um câncer.