FOLHA DE S.PAULO
Kiran Stacey
Richard Waters
Se os executivos do Vale do Silício esperavam que o próximo presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, promoveria o tipo de relacionamento amistoso que desfrutaram na época de Barack Obama, eles rapidamente se desiludiram dessa ideia na manhã de domingo (8).
Horas depois que o presidente eleito discursou, o seu chefe de imprensa, Bill Russo, retuitou uma foto enviada pelo comediante e cineasta Sacha Baron Cohen. A imagem mostra o presidente de saída, Donald Trump, encontrando-se com o presidente do Facebook, Mark Zuckerberg, e comenta: “Um já foi, falta o outro”. Russo acrescentou seu próprio comentário: “Diabos, sim”.
Foi o sinal mais claro de que a equipe de Biden compartilha a antipatia por Zuckerberg e seus colegas magnatas do Vale do Silício, que cresceu entre os democratas nos últimos quatro anos.
Tim Wu, que trabalhou com questões de tecnologia na Casa Branca de Obama, disse: “Houve uma mudança desde o governo Obama, mesmo entre as pessoas que trabalharam nesse governo, em seu modo de pensar sobre o poder no mundo tecnológico.
“Obama chegou ao poder em 2008, quando o Google era muito pequeno na indústria, assim como o Facebook, e ninguém sabia se eles sobreviveriam. Os fatos mudaram.”
Durante a campanha, Biden manifestou irritação com o Facebook, em particular, questionando a decisão da empresa de não checar a veracidade de anúncios políticos. Alguns esperam que a abordagem geral de Biden em relação à indústria possa ser moldada por alguns dos poderosos ex-executivos de tecnologia que o cercam.
O presidente eleito contratou para sua equipe de transição Jessica Hertz, ex-advogada-geral associada do Facebook, e Cynthia Hogan, ex-vice-presidente da Apple para assuntos governamentais. Eric Schmidt, que foi executivo-chefe do Google, tem sido um grande arrecadador de fundos e é citado para liderar uma nova força-tarefa sobre a indústria tecnológica na Casa Branca.
Enquanto isso, Kamala Harris, a vice-presidente eleita, há muito é apoiada por nomes como Sheryl Sandberg, do Facebook, e Marc Benioff, da Salesforce. Seu cunhado e ex-chefe de gabinete, Tony West, é o diretor jurídico do Uber.
Um executivo sênior de uma grande empresa de tecnologia disse que Biden “tem muitos amigos na indústria –é um mundo com o qual ele se sente muito à vontade”.
Barack Obama e o presidente eleito Joe Biden em evento de campanha em Flint, Michigan, no fim de outubro – Jim Watson – 31.out.20/AFP
No entanto, com a indústria de tecnologia enfrentando uma série de desafios políticos nos próximos quatro anos, desde tentativas de limitar as proteções legais das empresas a ameaças de dividi-las totalmente, poucos esperam um retorno à “era de ouro” do governo Obama.
“Achamos que será Barack Obama 2.0? Não, de forma alguma”, disse um executivo de tecnologia.
Pelo menos, afirmou outro executivo, o drama deve diminuir depois de quatro anos de pânico com o governo Trump.
“Mal posso esperar para acordar todas as manhãs e não ter que combater incêndios por causa de um tuíte presidencial”, disse um executivo do setor. “Estou ansioso pelo dia em que não teremos nossas proteções legais ameaçadas porque o Twitter marcou um de seus tuítes.”
ANTITRUSTE
A decisão mais importante de Biden será como abordar a questão da concorrência. No passado, ele disse que dividir empresas como o Facebook era “algo que deveríamos analisar muito bem”, sem se comprometer a fazê-lo.
Ele terá que decidir se pressionará por uma nova legislação antitruste, conforme solicitado no influente relatório de David Cicilline, o chefe democrata da subcomissão antitruste da Câmara dos Deputados.
Biden é um centrista, e um assessor democrata do Congresso previu que ele tentaria evitar dramas. “Ele não dirá que se deve desmembrar esta empresa, mas dirá que é preciso implementar uma fiscalização agressiva e, possivelmente, algumas mudanças nas regras.”
Mas outros acreditam que Biden, que vem recebendo conselhos informais de Sarah Miller, diretora-executiva do American Economic Liberties Project e proponente de grandes desmembramentos nas tecnológicas, poderá ser forçado a adotar uma linha mais dura pela esquerda de seu partido.
Mas essas nomeações terão de ser aprovadas pelo Senado, o que pode inclinar Biden para um candidato moderado se os republicanos conseguirem manter o controle depois das eleições para a câmara alta, em janeiro.
VISTOS
Se forem atingidas por mais impostos, as grandes empresas de tecnologia esperam pelo menos que Biden as ajude a contratar trabalhadores estrangeiros.
Trump restringiu a ap rovação de vistos em uma série de áreas, mas talvez os mais significativos para as empresas de tecnologia sejam os vistos H1-B, dos quais o Vale do Silício depende para contratar engenheiros, cientistas e codificadores do exterior.
Biden criticou Trump quando o presidente impôs novas restrições a esses vistos, embora não tenha se comprometido totalmente a reverter as mudanças.
“Você verá uma virada de 180 graus quase da noite para o dia”, previu um executivo do Vale do Silício. “Não se trata de trabalhadores agrícolas, trata-se de programadores de software.”
REGULAMENTAÇÃO DE CONTEÚDO
Uma área de que Biden tem falado abertamente é sobre a Seção 230 —a parte da lei americana que impede que as empresas de rede social sejam processadas por conteúdo postado por usuários em seus sites.
Trump já pediu à Comissão Federal de Comunicações que acrescente novas limitações à lei.
Biden também não é fã, dizendo no ano passado que “a Seção 230 deveria ser revogada, deveria ser revogada imediatamente”. Ele acrescentou: “Para Zuckerberg e outras plataformas. [Facebook] está propagando falsidades que eles sabem serem falsas”.
Se Biden decidir limitar as proteções da Seção 230, terá o apoio de muitos senadores republicanos, como Josh Hawley e Lindsey Graham, que propuseram seus próprios projetos de lei nesse sentido. Ele poderá ter dificuldades, entretanto, para garantir o apoio de McConnell, que ainda não aprovou publicamente os esforços de seus colegas.
Tradução de Luiz Roberto Mendes Gonçalves